quarta-feira, 24 de junho de 2026

8ª OFICINA DE 2026

 Dia 13 de maio de 2026, as Promotoras Legais Populares deram aula sobre Diversidade Religiosa e Laicidade, com as convidadas Marga Stoher e Mara Parlow, teólogas. 

A aula iniciou com o questionamento de  por que Deus é retratado sempre como um só, no singular. Assim como a figura religiosa sempre é retratada como masculina. Após uma dinâmica em grupo onde cada mulher apresentou sua conexão com a própria religiosidade, pudemos concluir que a religião é híbrida, raiz e sentir-se abençoado quando alguém diz “Deus te abençoe” e responder “amém” mesmo não estando presente em um ambiente religioso. Por outro lado, o fanatismo religioso age por retirar a possibilidade desse hibridismo, solidificando o entendimento de uma única verdade religiosa como absoluta e deslegitimando a possibilidade de uma verdade plural. 

 A teóloga Mara explicou que o termo Religião vem do latim “religare” e representa a busca humana por restabelecer conexão. A religião é um conjunto de valores, crenças, rituais e normas que conectam a humanidade a elementos transcendentes, espirituais ou divinos, podendo ser expressados por doutrinas, textos sagrados e práticas. Para além da materialidade, é a condição inefável que não pode ser explicada.  Ela é, também,  historicamente patriarcal, e uma representação desse fenômeno é o conceito de “dar nome”. Biblicamente “dar nome” é cuidar e conviver com as criaturas, mas da perspectiva monoteísta e patriarca, interpreta-se como dominação. 

Religião é diferente de religiosidade. Enquanto a religião é a formalização institucional e coletiva da fé, a religiosidade é a vivência individual e subjetiva dessa espiritualidade, podendo existir fora dos templos ou grupos organizados. Já a espiritualidade é a busca humana por significados, propósito e conexão com algo maior do que si mesmo. Não está necessariamente ligada a uma religião institucional.  

A religiosidade foi fundamental para a criação e difusão da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH) de 1948, que declara que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”. Mas o que significa de fato ser livre e ter liberdade? Ser digna e ter dignidade? O que é ter direito? Esses questionamentos foram apresentados pela teóloga Marga e impulsionaram o restante do debate. 

Em 1993, a campanha dos Direitos Humanos (DH) foi representada pela frase “sem as mulheres os direitos não são humanos”. Segundo as Nações Unidas, os DH são garantias jurídicas universais que protegem indivíduos e grupos contra ações ou omissões dos governos que atentem contra a dignidade humana. Os pilares da DUDH são o direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à dignidade e os DH são universais, históricos, indivisíveis, interdependentes, inalienáveis, imprescritíveis e irrenunciáveis. E o Programa Nacional dos Direitos Humanos situa a dimensão religiosa na diretriz da garantia de igualdade na diversidade, a Laicidade Estatal. 

A Laicidade Estatal é um princípio jurídico-político da separação entre o Estado e a religião, garantindo a neutralidade institucional e proibindo que o governo se porte baseado em uma religião oficial, favorecendo credos específicos ou baseando leis em dogmas teológicos. Trata-se de uma forma pétrea, isto é, não passível de modificação. 

Em outro módulo da aula, a facilitadora Cíntia Breve retratou sobre a Veneração de Orixás. “Ori” retrata a ligação com a divindade através da consciência própria. Os orixás são líderes amados, que não carregam influências patriarcais tão fortes, podendo ser representados na forma de mulheres ou homens. A sensação de aproximação da divindade, de viver o orixá, é denominada como encarnação. Na umbanda, não há o entendimento dos orixás como distantes e inalcançáveis como é entendido com os Deuses. 

Baixar entidade são os guias que emanam de orixás, entidades de linhas diferenciadas que trazem mensagens. O movimento do viver é Exú. Enquanto os guias são colares que permitem o sentimento de conexão com entidade que passou a energia de quem passou a proteção. 

Infelizmente, as religiões de matrizes africanas são exemplos de como a intolerância religiosa é forte no Brasil apesar da Laicidade Estatal. As diferenciações de crenças entre o cristianismo e demais religiões causam intolerância religiosa. Por exemplo, no cristianismo compreende-se que após a vida há o céu e o inferno, na umbanda e no candomblé entende-se que o inferno está na pessoa, e o pós-morte é o umbral, um ambiente psíquico em que o espírito fica em agonia.

Tais diferenciações são utilizadas como uma forma de deslegitimação e violência contra a umbanda e o candomblé, principalmente quando falamos sobre o racismo religioso. O racismo é a desumanização e o racismo religioso é um dos braços do racismo estrutural, tratando-se da invalidação do sentimento religioso do negro. Em 2023 foi publicada uma alteração que pune e coibe o racismo religioso e o terrorismo religioso. 

Debater sobre a diversidade religiosa e a laicidade estatal permite compreender o pluralismo religioso e como ele se intersecciona com os diferentes papeis atribuídos às mulheres na sociedade. A religião tem papeis historicamente patriarcal que se repercutem até os dias atuais na autonomia das mulheres, como a heteronormatividade e a romantização da maternidade e a compreensão da reprodução como destino biológico feminino, por exemplo.   

Para  duas autoras ateias, a aula ensinou sobre religiosidade de uma forma bonita, respeitosa, esperançosa e sincera, reconhecendo a parte boa e a ruim. O sentimento que prevalece é que apesar de não acreditarmos em um Deus, sempre acreditamos que é possível que o próximo possa acreditar.

Relatoria da cursista: Eduarda Berto e Luiza Cunha


Brasília, 13 de Junho de 2026.




segunda-feira, 8 de junho de 2026

7ª OFICINA DE 2026

  No encontro desse sábado, 30 de maio, falamos sobre cotas. A professora Dr. Ellen Cintra nos incentivou a trocar vivências e salientar tanto nossas semelhanças como nossas diferenças, essa troca resultou num entendimento mútuo, fomentando o acolhimento da diferença e a celebração da semelhança. 
  A aula seguiu com o relato da própria professora, recheado de luta e do desejo por menos luta, de esperança e de exemplo. Seguindo, tivemos a apresentação em formato de slide, com a professora mostrando e explicando os dados que colocam em números o racismo no Brasil. 
  A apresentação também mostrou os diversos pontos de luta que surgiram durante a história brasileira, desde os quilombos, ainda na época da escravização, até o movimento negro dos anos 60/70 e as exigências por políticas afirmativas no início dos anos 2000. 
  Dessa forma, foi possível traçar uma linha do tempo até a formulação das cotas como política pública, discutindo desde os dados quantitativos que demonstram o abismo que existe entre pessoas brancas e negras quanto as experiências qualitativas com os vários relatos pessoais que surgiram organicamente durante a aula. 
 Concluímos com mais relatos emocionantes sobre superação e a importância da educação nesse processo, sobretudo para mulheres negras.

Relatoria: Eduarda Berto

Brasília, 30 de maio de 2026.



quinta-feira, 28 de maio de 2026

6ª OFICINA DE 2026

O encontro teve como tema principal identidade racial como uma categoria sociológica, buscando entender como a identidade racial é construída e como ela influencia a vida das pessoas e a forma como elas são vistas pela sociedade. 

No primeiro momento, andamos pela sala observando umas às outras. Depois fizemos uma roda e ficamos de costas uma para a outra para refletirmos sobre as nossas diferenças. Esse momento fez a gente pensar sobre como cada pessoa possui características diferentes e como muitas vezes acabamos criando percepções sobre alguém apenas pela aparência.

Em outro momento, realizamos uma declaração de heteroidentificação, onde registramos a forma como nos identificávamos racialmente. A proposta era que, no final da aula, percebêssemos se continuávamos com a mesma visão ou se ela mudaria após todas as discussões e reflexões feitas durante o encontro.

Depois, o tema cor e raça foi abordado e discutido. Conversamos sobre a diferença entre esses conceitos e entendemos que a cor está relacionada à tonalidade da pele, enquanto a raça é uma construção social baseada na aparência, nos traços físicos e também em fatores históricos e sociais.

Em seguida, fizemos uma atividade parecida com um júri, onde apareciam imagens de famosos e falávamos se acreditávamos que eles eram brancos, negros, pardos e entre outras classificações. Nesse momento percebemos que, além da cor da pele, também observávamos os traços físicos para chegar a uma conclusão.

Também discutimos bastante sobre como o meio social influencia nisso, entendendo que o território, o contexto, as experiências e as pessoas ao nosso redor influenciam na forma como nos enxergamos e também na maneira como a sociedade nos vê.

Também tivemos um momento de conversa sobre experiências pessoais que já passamos por conta da nossa cor, compartilhando situações e refletindo sobre como essas questões fazem parte da realidade de muitas pessoas.

No último momento, cada uma falou o nome de uma mulher negra que admirava, valorizando a representatividade e a importância dessas mulheres na sociedade.

Foi uma aula de muita aprendizagem e reflexão, pois me fez perceber que a identidade racial vai muito além da aparência física, sendo influenciada também por fatores sociais, culturais e históricos. Além disso, foi um momento importante para ouvir diferentes experiências e ampliar a forma como enxergamos essas questões no nosso cotidiano.

Relatoria da cursista: Beatriz Soares

sexta-feira, 22 de maio de 2026

5ª OFICINA DE 2026

O encontro teve como tema central a discussão sobre classe social, desigualdade, consumismo e os impactos estruturais dessas divisões na vida das pessoas. 

No primeiro momento, assistimos a um vídeo do influenciador “Primo Pobre”, que defendia a ideia de enriquecimento através da economia individual, esforço e humildade. A partir disso, realizamos a dinâmica “Quem larga na frente”, onde cada uma recebeu um papel com realidades sociais diferentes. Algumas possuíam privilégios, como genitores formados, estabilidade financeira e rede de apoio; outras representavam vivências marcadas por dificuldades, como maternidade solo, necessidade de trabalhar cedo, cuidar da casa o pagar aluguel.

A dinâmica tornou visível como a meritocracia não considera que nem todas as pessoas começam do mesmo ponto. Algumas já largam (nascem) muito à frente devido aos privilégios sociais, econômicos e familiares herdados historicamente.

No segundo momento, participamos de um “Chá Revelação” sobre classes sociais. A atividade mostrou a enorme concentração de renda existente no Brasil e como a maioria da população se identifica com as classes populares, enquanto uma minoria concentra riqueza e oportunidades. Através de perguntas sobre hábitos de vida, consumo e acesso a determinados espaços, refletimos sobre pertencimento social e desigualdade.

No terceiro momento, assistimos a um vídeo sobre classe social com o sociólogo Thiago, onde aprendemos conceitos utilizados oficialmente para diferenciar as classes econômicas.

Também discutimos como essas classificações são utilizadas tanto pelo governo, na elaboração de políticas públicas, quanto pelas empresas, através do marketing, da publicidade e dos algoritmos que direcionam produtos e desejos para diferentes públicos.

Foram debatidos conceitos como burguesia, proletariado, modos de produção e capital político, refletindo sobre como influência, dinheiro e oportunidades muitas vezes são herdados. Também conversamos sobre nepotismo e sobre como certos grupos acumulam vantagens históricas enquanto outros permanecem em situação de vulnerabilidade.

No último momento, assistimos a um vídeo sobre consumismo e sociedade de consumo.

Refletimos sobre como o sistema cria falsas necessidades para manter o ciclo constante de produção e lucro. Discutimos também a obsolescência planejada, onde muitos produtos já são fabricados para durar pouco tempo, incentivando o consumo contínuo e gerando impactos ambientais e sociais cada vez mais insustentáveis.

O debate também trouxe reflexões sobre como essas questões afetam diretamente as mulheres, especialmente através da pressão estética, do consumo ligado à autoestima, do etarismo e da constante exigência de juventude, beleza e produtividade. Observamos como o mercado utiliza inseguranças femininas para estimular o consumo de produtos, procedimentos e padrões muitas vezes inacessíveis para grande parte das mulheres.

Também relacionamos essas questões ao racismo ambiental, entendendo que os maiores impactos da degradação ambiental, da precarização e da falta de infraestrutura atinge principalmente populações periféricas, negras e vulnerabilizadas.

O encontro proporcionou reflexões importantes sobre desigualdade, privilégios, consumo, sustentabilidade e justiça social, mostrando como questões econômicas, ambientais e sociais estão profundamente conectadas no cotidiano das mulheres.

Relatoria da Cursista: Vitória de Meneses

Brasília, 16 de Maio de 2026.